segunda-feira, 19 de março de 2012

VIVENCIA SOMÁTICA-O TRAUMA

VIVENCIA SOMÁTICA


CURANDO O TRAUMA – 1ª. parte

“ Se você expressar o que está dentro de você

Então o que está dentro de você será a sua salvação.

Se você não expressar o que está dentro de você

Então o que está dentro de você irá destruí-lo.”



“ Não importa onde estejamos, a sombra que trota atrás de nós tem certamente quatro patas”. Clarissa Pinkola

As nossas chances de sobrevivência aumentaram a partir do momento que nos juntamos em grupos maiores, contudo, a memória genética de ter sido presa fácil se manteve em nosso cérebro e sistema nervoso.

O cérebro humano frequentemente duvida da nossa habilidade de agir de modo que preserve a vida. Essa incerteza nos tornou vulneráveis aos efeitos do trauma. Quando nos confrontamos com uma situação de ameaça à vida, o nosso cérebro racional tende a ficar confuso e dominar os nossos impulsos instintivos. Essa dominância pode ocorrer por uma boa razão, mas a confusão que a acompanha cria o cenário para o que chamamos de “Complexo de Medusa”, ou o drama chamado trauma.

0 que pode resultar do confronto com a morte, pode nos transformar em pedra, como aconteceu no mito grego da Medusa. Podemos literalmente congelar de medo, o que irá resultar na criação de sintomas traumáticos.

O trauma tornou-se tão comum, que a maioria das pessoas nem mesmo reconhecem a sua presença. Esses sintomas podem permanecer ocultos por anos e anos.

Os sintomas traumáticos não são causados pelo acontecimento desencadeador em si mesmo. Eles vêm dos resíduos congelado de energia que não foi resolvido e descarregado, e que permanece preso no sistema nervoso, e que pode causar danos ao corpo e espírito.

A diferença entre a corrida interna do sistema nervoso e a imobilidade externa do corpo cria uma poderosa turbulência, semelhante a um tornado, dentro do corpo. Esse tornado de energia é o ponto focal, a partir do qual se formam os sintomas de estresse traumático. A energia residual não vai simplesmente embora, ela persiste no corpo, e com freqüência, força a formação de uma grande variedade de sintomas.

Esses sintomas são o modo como o organismo encurrala a energia residual não descarregada. Os animais selvagens descarregam instintivamente toda essa energia comprimida, e raramente desenvolvem sintomas adversos. Nós humanos não somos tão competentes, tornamo-nos vítimas do trauma quando somos incapazes de liberar essas forças poderosas. Podemos ficar presos a essas energias por nossas tentativas frequentemente mal sucedidas de descarregá-las, e sem saber podemos criar repetidamente situações nas quais exista a possibilidade de nos libertar da armadilha do trauma, mas nas quais a maioria de nós falha por não ter os recursos e ferramentas adequadas , é como uma mariposa que se sente atraída para uma chama. Muitos de nós ficamos crivados de medo e ansiedade, não nos sentimos à vontade conosco e nem com o nosso mundo.

A cura do trauma depende do reconhecimento dos sintomas, os quais são difíceis de reconhecer, pois são geralmente resultados de respostas primitivas. Precisamos da experiencia de sua sensação (sensopercepção). Podemos aprender a identificar uma experiencia traumatica ao explorar as nossas reações. Crianças traumatizadas podem apresentar graves distúrbios em seu funcionamento psicológico, medico e social. Elas experienciam pesadelos recorrentes, tendencias violentas e diminuição da capacidade de se relacionar normalmente com pessoas e ambiente.

Em casos extremos de perigo as pessoas ficam em estado de choque , congeladas e apáticas, incapazes de se mover . Essa passividade é similar ao comportamento observado pelas equipes militares especializadas em libertar reféns; é conhecido como “síndrome de Estocolmo”. Com frequencia os reféns não se mexem, a menos que recebam ordens repetidas para faze-lo.

Algumas crianças ficam tão aterrorizadas que o seu medo continua a sobrecarregá-las e imobilizá-las muito depois do perigo real ter acabado. Elas são incapazes de superar a ansiedade de sua experiencia. Permanecem sobrecarregadas pelo acontecimento, derrotadas e aterrorizadas. Elas são incapazes de se envolver novamente com a vida, pois estão virtualmente aprisionadas por seu medo.

Não importa quão assustador possa parecer um acontecimento,nem todos que o experienciam serão traumatizados.

PERGUNTAS

Porque algumas pessoas enfrentam com sucesso esses desafios, enquanto que outras, que não parecem ser menos inteligentes ou capazes ficam completamente debilitadas?

Quais são as implicações em relação àqueles de nós que já estão debilitados por traumas anteriores?

Em alguns casos, a pessoa fica sobrecarregada, e como resultado disso fica fisiológicamente atolada na resposta de imobilidade. O corpo literalmente fica resignando-se a permanecer em um estado no qual o ato de fugir não pode existir, e junto com essa resignação ocorre a perda generalizada do eu real e vital, bem como a perda de uma personalidade segura e espontanea.

A maioria das presas animais, usa a imobilidade quando é atacada por um grande predador, do qual não consegue escapar.

Não é a catarse emocional e nem o reviver da situação dramática, o catalisador na recuperação da pessoa, mas sim a descarga da energia que ela experiencia quando sai da resposta de imobilidade passiva e congelada para uma fuga ativa e bem sucedida.

OS RECURSOS PARA A CURA

Os recursos que fazem com que uma pessoa possa ser bem sucedida diante de uma ameaça podem ser usados para a cura. É desnecessário escavar velhas memórias e reviver a sua dor emocional para curar o trauma. Na verdade, a dor emocional severa pode ser re-traumatizante. O que precisamos fazer para nos libertar dos sintomas e medos é evocar os nossos recursos fisiológicos profundos e utilizá-los conscientemente.

Se permanecermos ignorantes do nosso poder para mudar o curso de nossas respostas instintivas, para um modo pró-ativo em vez de reativo, continuaremos aprisionados e sofrendo.

Num trabalho de cura com uma paciente que retirou as amigdalas, utilizando a visualização, o movimento das pernas possibilitou uma resposta à ameaça de um tigre imaginário que fez com que a energia presa fosse liberada pelo sistema nervoso. Havia ali um excesso de energia que tinha sido mobilizada pelo sistema para poder lidar com a ameaça que experimentou quando da retirada das amigdalas. No exercício ela foi capaz de despertar a capacidade de heroismo e fugir ativamente.

A lição é de que somos capazes de curar nossos traumas. Quando não somos capazes de fluir pelo trauma e completar as respostas instintivas, essas ações incompletas erodem nossas vidas. O trauma não resolvido pode nos tornar excessivamente cautelosos e inibidos, ou fazer-nos entrar em círculos cada vez mais apertados de re-atuação perigosa, vitimização e exposição temerária ao perigo. Tornamos-nos as vítimas perpétuas, ou os eternos clientes de terapia.

O trauma pode destruir a qualidade de nossos relacionamentos, e distorcer as experiencias sexuais. Comportamentos sexuais compulsivos, perversos, promíscuos e inibidos, são sintomas comuns do trauma.

Até que entendamos que os sintomas traumáticos são fisiológicos e psicológicos, seremos infelizes em nossas tentativas de curá-los. A questão é ser capaz de reconhecer que o trauma representa os instintos animais que foram distorcidos.

O abuso sexual é uma das muitas formas de trauma. As raízes do trauma estão em nossa fisiologia instintiva. Como resultado, e por intermédio de nosso corpo, e de nossa mente, descobrimos a chave para a cura.

A cura é um processo natural que pode ser acessado pela consciencia interna do corpo. Ela requer anos de terapia, ou que as lembranças sejam reiteradamente evocadas e expurgadas do inconsciente. Os sintomas pós-traumáticos são, fundamentalmente respostas fisiológicas incompletas suspensas no medo. Essas reações de ameaças à sobrevivencia, continuam pela vida como sintomas até que se completem. Os sintomas não irão embora até que as respostas sejam descarregadas e completadas. Os humanos sofrem quando são incapazes de descarregar a energia que está trancada internamente pela resposta de congelamento, embora raramente morramos. Um animal acidentado, pode passar pelo processo de tremer, e depois reorientar-se sem interrupções, pode passar pela fase de imobilização e sair dela, sem trauma. Mas, se o processo de descarga, o tremor, for perturbado, o estado de choque demora mais, e como resultado o animal pode morrer de medo, sobrecarregado por sua própria impotencia.

Quando pessoas e animais são confrontados com situações avassaladoras ((overwhelming- refere-se à intensidade da experiencia, que vai além das possibilidades de integrá-las), se forem incapazes de reorientação, e escolher entre lutar ou fugir, irão congelar ou colapsar. Os que forem capazes de descarregar essa energia, se recuperarão, mas, os humanos geralmente iniciam uma espiral descendente caracterizada por uma série de sintomas cada vez mais debilitantes, ao invés de se moverem pela resposta de congelamento, como os animais.

Precisamos de segurança e proteção. Precisamos do apoio de amigos e parentes para nos movermos pelo trauma.

Enxaqueca, é uma reação de estresse do sistema nervoso frequentemente relacionada a reações pós traumáticas. Depois dos ataques de enxaquecas, os pacientes podem transpirar um pouco, e deixar escapar um pouco de urina (catarse fisiológica), algumas gotas de suor também acompanham a resolução e cura do trauma. Quando é utilizado medicamento isso não ocorre e não há cura. O corpo passa dos arrepios para uma ativação crescente, com ondas de calor úmido, derretendo o “iceberg” criado pelo trauma.

O processo de cura criativa pode ser bloqueado usando-se drogas para suprimir os sintomas, enfatizando-se o controle, ou pela negação, ou invalidação de sentimentos e sensações.

As vítimas de traumas violentos podem nunca mais ser as mesmas biológicamente.

As drogas, tais como o Prozac, podem ser úteis para dar tempo para que os indivíduos traumatizados se estabilizem. Contudo, interferem na cura quando utilizados por períodos prolongados, a fim de suprimir a própria resposta equilibradora do corpo, ao estresse.

O organismo precisa do chacoalhar e tremor espontaneos ( que vemos no mundo animal), para completar o seu curso de ação biológica significativa.

A capacidade inata de auto-regulação fica perturbada, quer a resposta restauradora tenha sido suprimida por drogas, mantida congelada pelo medo, ou controlada por pura força de vontade.

Devemos ter em mente que o mundo primitivo, ainda está muito vivo em nós. Os acontecimentos que ameaçaram rotineiramente a vida das pessoas pré-históricas moldaram o nosso sistema nervoso moderno para responder com determinação, por inteiro, sempre que percebemos que a nossa sobrevivencia está ameaçada.

Ser ameaçado evoca nossos recursos mais profundos, e nos permite experienciar o nosso potencial mais pleno, como seres humanos. É assim que o nosso bem-estar emocional e físico é ampliado. Hoje, a sobrevivencia depende cada vez mais de nossa habilidade de pensar, em vez de ser capaz de responder físicamente. Não importa como vejamos a nós mesmos, literalmente somos animais humanos. Os desafios aparecem rapidamente, mas o nosso sistema nervoso mudou de modo mais lento. As pessoas que estão mais em contato com o seu ser animal, tendem a se sair melhor quanto ao trauma. Por não terem um acesso fácil aos recursos desse eu instintivo e primitivo, os humanos separam o seu corpo da sua alma. A maioria de nós não pensa ou experiencia a si mesmo como animais. Entretanto, por não viver os nossos instintos e reações naturais, também não somos plenamente humanos. Estamos no limbo, nem totalmente animais, e nem totalmente homens.

O nosso sistema nervoso e nossa psique precisam encarar desafios, e ser bem-sucedidos, para que possam permanecer saudáveis. Quando essa necessidade não é satisfeita, ou quando somos desafiados e não podemos triunfar, acabamos ficando sem vitalidade, e somos incapazes de nos engajar de modo pleno na vida.

Prestem atenção: podemos afirmar que a Guerra e a violencia afetaram a vida de quase todos os homens, mulheres e crianças que vivem neste planeta. Furacões, terremotos, inundações, incendios, e outros, afetaram pessoas que correm o risco de sofrer, ou já estão sofrendo com o trauma. Setenta e cinco por cento das pessoas que vão ao medico apresentam queixas que são chamadas de psicossomáticas, porque não consegue encontrar nenhuma explicação física para elas.

A depressão e a ansiedade tem antecedentes traumáticos, e o mesmo acontece com as doenças mentais. Os sintomas podem permanecer latentes, acumulando-se por anos ou décadas, e então durante um periodo estressante, ou como resultado de outro incidente, podem aparecer sem nenhum aviso. Voce convive com a impressão de que os medicos acreditam que voce é hipocondríaco, porque não conseguiram encontrar nenhuma causa para a sua condição.



QUEIXAS- A REALIDADE DA PESSOA TRAUMATIZADA

2ª. PARTE

As palavras não podem transmitir de modo preciso a angústia que uma pessoa traumatizada experiencia:

Tenho medo de sair da cama de manhã

Tenho medo de sair de casa

Tenho muito medo da morte, não de morrer algum dia, mas de morrer nos próximos minutes

Tenho medo da raiva

Tenho medo do sucesso, ou …do fracasso

Sinto dor no peito, e formigamento, entorpecimento nos braços e pernas todos os dias

Quase que diariamente sinto cólicas

Sinto dor a maior parte do tempo

Acho que não posso continuar

Tenho dores de cabeça

Sinto-me nervosa o tempo todo

A minha respiração é curta, o meu coração dispara, e sinto desorientação e pânico

Estou sempre frio, e tenho a boca seca

Tenho dificuldades em engolir

Não tenho energia e nem motivação…quando realize alguma coisa não sinto satisfação

Estou sobrecarregado, confuse, perdido, desamparado

Tenho explosões incontroláveis de raiva e, depressão.

Em nossa cultura há uma falta de tolerancia pela vulnerabilidade emocional que as pessoas traumatizadas experienciam. Temos que nos ajustar rapidamente logo depois de uma situação avassaladora. Dá-se pouco tempo ao trabalho de passar pelos acontecimentos emocionais. A negação é comum (não foi nada, já passou. Esqueça o que aconteceu. Se doer, esconda. Sofra sem reclamar. É hora de seguir adiante…).



QUEM É O TRAUMATIZADO?

A habilidade de responder apropriadamente diante do perigo é determinado por vários fatores:

1- O acontecimento

-Quanto ele é ameaçador?

-Quanto tempo dura?

-Com que frequencia ocorre?

Podemos dizer que a Guerra e o abuso sexual na infancia suplantam os recursos de sobrevivencia do indivíduo.



2- O contexto da vida no momento do acontecimento

-O apoio ou falta da família e amigos

-Saúde fraca (má alimentação)

-Estresse continuo

-Fadiga



3- Características físicas

-Idade e nível de desenvolvimento fisiológico e Resistencia

-Força, rapidez, forma física



4- Capacidades aprendidas

Bebes e crianças são mais vulneráveis do que o adolescente ou o adulto. Por isso, as reações traumáticas frequentemente provêm da 1a. infância.



5- O modo de experienciar a capacidade de encarar o perigo

-Sensação interna de autoconfiança. Recursos externos (um amigo, um urso, uma arma, um anjo, etc.) Recursos internos- o senso do eu vivenciado é afetado por um conjunto complexo de recursos, que incluem atitudes psicológicas e experiencia, e reações instintivas (defesa inata traduzido pelo sistema nervoso, por ex. O braço levanta repentinamente para aparar o golpe…)

Dramaticamente, o instinto assume diante do perigo.

Os efeitos posteriores traumáticos da imobilização prolongada de hospitalizações e especialmente cirurgias, com frequencia são duradouras e graves, mesmo que a pessoa reconheça que uma cirurgia era necessária, e apesar do fato de ela estar inconsciente, enquanto o cirurgião corta a carne, músculos e ossos, isso é registrado no corpo como um acontecimento que ameaça a vida. No nível cellular, o corpo percebe que sofreu um ferimento sério suficiente para colocá-lo em perigo mortal.

Intelectualmente, podemos acreditar na operação, mas num nível primário o corpo não acredita. Por isso, a cirurgia frequentemente produz uma reação pós-traumática.



CAUSAS

. desastres naturais

.exposição à violência

.acidentes, quedas e doenças graves

.perda súbita da pessoa amada

.procedimentos cirúrgicos médicos e dentários

.partos difíceis e altos níveis de estresse na gestação.

CONSEQUENCIAS

Tanto as causas quanto os sintomas do trauma são incrivelmente amplos e diversificados, são eles:

.flashbacks

.ansiedade

.falta de vitalidade

.problemas comportamentais e psicossomáticos

.ataques de pânico, insônia e depressão

.dificuldade de se abrir

.ataques de raiva violenta e não provocada

.comportamentos destrutivos repetitivos.

Agradecimentos à Peter A. Levine, autor do livro- O Despertar do Tigre- por essa belíssima obra.

Vera Occhiucci

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